sábado, 14 de novembro de 2015

Resenha: FILORAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As ciências das religiões. São Paulo: Paulus, 1999.

Resenha: FILORAMO, Giovanni; PRANDI, Carlo. As ciências das religiões. São Paulo: Paulus, 1999.





Na exigência de estudos que re-proponham o problema do sentido e da globalidade dos processos de pesquisa, que forma, com suas especializações e seus métodos, os diferentes campos disciplinares, o estudo das religiões encontra-se neste movimento tendo se levantado como reação em apelo de não perder de vista a unidade e especificidade do objeto quanto ao sentido global de pesquisa.
Deve-se ter em vista que os fundadores do estudo científico das religiões moveram-se num terreno mais limitado e controlável, seja do ponto de vista do conhecimento, quanto dos métodos. Todavia, hoje isso não é mais possível, sendo que não é hoje pensável que um estudioso tenha a pretensão de orientar-se com total domínio nos diversos campos disciplinares que formam as ciências das religiões. Contudo, permanece ainda viva e inevitável a exigência de sentido e globalidade que também caracterizou a pesquisa dos pioneiros.
O fato é que foram se afirmando cada vez mais, durante a segunda metade do século XIX – alinhados com o desenvolvimento das ciências humanas –, estudos e interpretações dos fatos religiosos que num quadro metodologicamente novo visava à integração e o aprofundamento dos conhecimentos.
Destaca-se então o problema epistemológico básico das ciências das religiões – constituído pela alternativa explicar ou compreender, surgido em toda sua complexidade no início do século XX, após a crise do positivismo. Em suma, quanto ao modelo de explicação, válido no campo dos fenômenos naturais opõe-se o modelo da compreensão válido no campo das ciências do espírito. Assim, temos dois tipos de abordagem que dividem verticalmente os campos metodológicos.
No método da explicação, seu traço essencial enquanto paradigma é constituído pela premissa da religião enquanto elemento distintivo da fé, sendo uma manifestação antropológica e histórica que pode, como qualquer outro fenômeno humano, se sujeitar aos métodos de pesquisa. A partir dessa premissa, temos uma segunda, a de que religião possui uma “estrutura” própria. Portanto, o dado religioso, nessa perspectiva pode ser progressivamente desvelado, reconduzindo-o a dados sociológicos, psicológicos, antropológicos etc. Nessa perspectiva, acentuou-se uma operação explicativa em que o intérprete deve eliminar a própria subjetividade na busca de uma confiabilidade interpretativa.
Quanto a esse modelo interpretativo opõe-se o da compreensão, tendo se aplicado ao mundo dos fenômenos religiosos, esse modelo traduziu-se numa verdadeira corrente, sendo esta a fenomenologia compreensiva da religião. Então, resumindo os traços essenciais desse segundo paradigma deve-se notar que seu pressuposto essencial é a autonomia da religião; isto é, a experiência religiosa é considerada como fonte de onde brotam as religiões. Por conseguinte, o intérprete não pode colocar-se de maneira afastada, asséptica e neutra, pois ele está também envolvido com o seu objeto de estudo. Portanto, o método da compreensão visa uma técnica para reviver um núcleo experiencial no qual se revela o fenômeno religioso.
Assim, todo o debate epistemológico que dominou o final do século XIX e início do século XX girou em torno da dificuldade e impossibilidade de definir um único modelo científico. Haja vista que, as regras científicas não são condições estáticas e definidas a pesquisa, mas são regras contemporâneas e que conseqüentemente se modificam segundo as possibilidades encontradas pelos pesquisadores. Com isso, é cada vez mais re-valorizado a necessidade das capacidades imaginativas e intuitivas do pesquisador. Portanto, um contraposição entre explicação e compreensão vai sendo progressivamente substituído por um modelo de integração.
De modo que é no interior dessa nova dinâmica que deve ser visto o problema da “cientificidade” das ciências das religiões. Ademais, o estatuto epistemológico das ciências das religiões não é apenas efeito do debate epistemológico amplo, mas ele reflete, ao mesmo tempo, questões e problemas internos. Em suma, quem fala de ciência da religião tente a pressupor a existência de um método e objeto único. Por outro lado, quem prefere falar de ciências das religiões, o faz porque está convencido do pluralismo metodológico e do objeto.
Contudo, a ciências da religião não constitui uma disciplina à parte, fundada em uma unidade de método e objeto, mas ela é um campo disciplinar e, como tal, tem uma estrutura aberta e dinâmica. Simultaneamente, o pesquisador das religiões aprende, por uma série de demandas internas ao seu próprio campo de estudo, a se envolver com questões relativas à continuidade e à duração de modelos e estruturas.
Embora o atual debate metodológico sobre as ciências da religião dá mostras de privilegiar eixos interpretativos; o que não se deve correr o risco de esquecer é que por trás dos fatos religiosos, por de trás das religiões, estão pessoas concretas com sua fé e humanidade, cuja integridade é preciso captar.
Deve-se ter em vista que o estudo científico da religião avançou à medida que se demonstrou capaz de assumir novas perspectivas metodológicas; pois cada método contribui para um aspecto da realidade histórica que é variada e multifacetada, o qual resiste a captação por uma única rede metodológica. Logo, o que se dá a conhecer ao estudioso dos fenômenos religiosos intermediado por pressupostos de pesquisa não é um “estado puro” das religiões, mas um entrelaçamento com sua lógica própria num contexto histórico-social.
Com isso, urge o rompimento do paradigma de progresso acumulativo para um mecanismo metodológico diferente, assim rompendo com o paradigma interpretativo da concepção linear evolutiva deixando então para trás um clima cultural fortemente influenciado por conotações positivistas.


Referência Imagens:

Giovanni Filoramo. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511417-de-que-deus-voce-e-entrevista-com-giovanni-filoramo>.

Carlo Prandi. Disponível em: <http://www.mantovaninelmondo.com/Album/album902a.htm>.